Etiquetas: Filosofia, literatura
1.12.16
"NÃO cabe ao homem colocar-se em oposição à sociedade, mas manter-se em atitude compatível com as leis do seu ser, que não estarão em oposição às leis governamentais se ele tiver a sorte de se defrontar com um governo justo.
Deixei os bosques por uma razão tão boa como aquela que para lá me levou. Talvez por me ter parecido que tinha várias vidas para viver, não podendo desperdiçar mais tempo com aquela. É impressionante a facilidade com que insensivelmente caímos numa determinada rotina e estabelecemos para nós um trilho batido."
Henry David Thoreau (considerado por Henry Miller como um dos 50 estado-unidenses mais relevantes de sempre), "Walden ou a Vida nos Bosques", traduzido para português por Astrid Cabral. É esta a América que eu admiro.
7.2.11
21.6.10
"SE um homem atravessar um rio e um barco vazio colidir com a sua própria embarcação, mesmo que seja um mal-humorado, não sentirá muita raiva. Mas se vir um homem no outro barco, gritará que ele reme a direito. Se o outro não ouvir o grito, gritará de novo. E mais, começando a insultar. Tudo porque há alguém no barco. Se o barco estivesse vazio, não gritaria nem ficaria com raiva. Se conseguires esvaziar o seu barco ao atravessar o rio do mundo, ninguém te porá obsatáculos, ninguém te procurará fazer mal."
Zhuangzi, filósofo do Daoísmo, (século II a.C.)
Zhuangzi, filósofo do Daoísmo, (século II a.C.)
5.1.10
"O Natal é tempo de paz, tempo de amor, tempo de lamentar a existência de pessoas como eu. Não admira que seja uma época que toda a gente aprecia. No dia que assinala o nascimento do salvador, o cardeal-patriarca não resistiu a lembrar que há quem não tenha salvação possível. (…) O ateísmo tem sido, para mim e para tantos outros incréus, a luz que me tem conduzido na vida. Às vezes fraquejo, em momentos de obscuridade e de dúvida, mas, mesmo sendo incapaz de provar a inexistência de Deus, tenho conseguido manter a fé – uma fé íntima fundada numa peregrinação que tem a grandeza e a humildade da longa caminhada da vida – em que Ele não exista. Todos os dias busco a não-existência do Senhor com renovada crença, ciente de que a Sua inexistência é misteriosa demais para que eu a tenha inventado. (…) Acreditar que Deus existe é uma convicção profunda, mas acreditar que não existe, curiosamente, não o é. Alguém, munido de um aparelho próprio, mediu a profundidade das convicções e deliberou que as do crente são mais fundas que as do ateu. Quando alguém diz acreditar em Deus, está a exprimir legitimamente a sua fé; quando um ateu ousa afirmar que não acredita, está a agredir as convicções dos crentes. Ser crente é merecedor de respeito, ser ateu é um crime contra a humanidade. (…)"
Ricardo Araújo Pereira, Visão in Diário Ateísta
"O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde."
Millôr Fernandes
Ricardo Araújo Pereira, Visão in Diário Ateísta
"O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde."
Millôr Fernandes
Etiquetas: Filosofia
4.1.10
“SE o animal-fêmea começava subitamente a gemer de prazer; se o animal-fêmea tinha subitamente um ataque de raiva, com as mandíbulas a moverem-se como atacadores velhos, o peito a ofegar e as costelas a estalar; se o animal-fêmea desatava de súbito a desintegrar-se no chão, para colapso da alegria e da sobreexasperação, precisamente nesse momento, nem um segundo depois, o prometido planalto surgia à vista como um navio a emergir do nevoeiro e só restava cravar-lhe a bandeira das estrelas e das listas e reclamá-lo em nome do Tio Sam e de tudo quanto é sagrado. Estas desventuras aconteciam com tanta frequência que era impossível não acreditar na realidade de um reino chamado Foda, pois era esse o único nome que lhe podia ser dado, embora fosse mais do que foda e fodendo não conseguíamos mais do que começar a aproximarmo-nos dele. Numa ocasião ou noutra toda a gente cravava a bandeira nesse território e, todavia, ninguém o podia reclamar permanentemente. Desaparecia da noite para o dia, às vezes num abrir e fechar de olhos. Era terra de ninguém e tresandava ao refugo de mortes invisíveis. Se era declarada uma trégua, os contendores encontravam-se nesse terreno e apertavam a mão e trocavam tabaco. Mas as tréguas nunca duravam muito tempo. A única coisa que parecia revestir-se de ‘permanência’ era a ideia de ‘zona intermédia’. Ali as balas voavam e os cadáveres amontoavam-se; depois chovia e por fim não restava mais do que o fedor.
Isto é tudo uma maneira figurada de falar do que não é mencionável. Não mencionáveis são a foda pura e a cona pura: só devem ser mencionadas em edições de luxo, pois de contrário o mundo desintegrar-se-á. O que mantém o mundo inteiro, como aprendi pela amarga experiência, são as relações sexuais. Mas foda, o artigo genuíno, e cona, o artigo genuíno, parecem conter qualquer elemento identificado mais perigoso do que a nitroglicerina. (...)”
Henry Miller, Trópico de Capricórnio
Isto é tudo uma maneira figurada de falar do que não é mencionável. Não mencionáveis são a foda pura e a cona pura: só devem ser mencionadas em edições de luxo, pois de contrário o mundo desintegrar-se-á. O que mantém o mundo inteiro, como aprendi pela amarga experiência, são as relações sexuais. Mas foda, o artigo genuíno, e cona, o artigo genuíno, parecem conter qualquer elemento identificado mais perigoso do que a nitroglicerina. (...)”
Henry Miller, Trópico de Capricórnio
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13.12.09
"TOMADOS num sentido quase literal, muitos textos taoístas e budistas dariam peso a esta opinião, a saber, que o mais alto estado de consciência é uma consciência vazia de tudo: ideias, sentimentos e mesmo sensações. Hoje, na Índia, é esta concepção Samadhi que prevalece. Este tipo de interpretação literal é também para nós, formados na experiência cristã, extremamente familiar, mesmo nas mais cerradas especulações.
A posição de Hui-meng era a de que um homem com uma consciência vazia não valia mais do que 'um bloco de madeira ou um estilhaço de pedra'. Insistiu em que toda a ideia de purificar a mente era irrelevante e causadora de confusão, porque 'a nossa própria natureza é essencialmente clara e pura'. Por outras palavras, não há qualquer analogia entre consciência ou mente e um espelho que pode ser limpo. A verdadeira mente é 'não-mente' (wu-hsin), na acepção de que não deve ser encarada como um objecto de pensamento ou acção, como se tratasse de uma coisa suscepível de ser agarrada e controlada. A tentativa de agir sobre a nossa própria mente é um círculo vicioso. Tentar purificar é estar contaminado pela pureza. Como é óbvio, trata-se aqui da filosofia taoísta da naturalidade, segundo a qual uma pessoa não é genuinamente livre, desprendida ou pura, quando o seu estado resulta de uma disciplina artificial. Limita-se a imitar a 'pureza', a macaquear a clara compreeensão. Daí a desagradável e auto-suficiente honradez daqueles que são deliberada e metodicamente religiosos.
O ensinamento de Hui Heng diz que, em vez de tentarmos purificar ou desocupar a mente, devemos pura e simplesmente soltá-la, porque a mente não é para ser agarrada. Soltar a mente equivale ainda a soltar a série de pensamentos e impressões que vêm e vão na mente, nem os reprimindo nem sustendo, nem interferindo neles.
Os pensamentos vêm e vão por si próprios, pois, graças ao uso da sabedoria, não há obstrução. Eis o samandhi de pragna e a natural libertação. Tal é a prática do 'não pensamento'. Mas se não pensares em absolutamente nada e ordenares desde logo que os pensamentos cessem, isso equivale a ficares atado de pés e mãos por um método, e é chamado uma visão obtusa."
Allan W. Watts, Budismo Zen
A posição de Hui-meng era a de que um homem com uma consciência vazia não valia mais do que 'um bloco de madeira ou um estilhaço de pedra'. Insistiu em que toda a ideia de purificar a mente era irrelevante e causadora de confusão, porque 'a nossa própria natureza é essencialmente clara e pura'. Por outras palavras, não há qualquer analogia entre consciência ou mente e um espelho que pode ser limpo. A verdadeira mente é 'não-mente' (wu-hsin), na acepção de que não deve ser encarada como um objecto de pensamento ou acção, como se tratasse de uma coisa suscepível de ser agarrada e controlada. A tentativa de agir sobre a nossa própria mente é um círculo vicioso. Tentar purificar é estar contaminado pela pureza. Como é óbvio, trata-se aqui da filosofia taoísta da naturalidade, segundo a qual uma pessoa não é genuinamente livre, desprendida ou pura, quando o seu estado resulta de uma disciplina artificial. Limita-se a imitar a 'pureza', a macaquear a clara compreeensão. Daí a desagradável e auto-suficiente honradez daqueles que são deliberada e metodicamente religiosos.
O ensinamento de Hui Heng diz que, em vez de tentarmos purificar ou desocupar a mente, devemos pura e simplesmente soltá-la, porque a mente não é para ser agarrada. Soltar a mente equivale ainda a soltar a série de pensamentos e impressões que vêm e vão na mente, nem os reprimindo nem sustendo, nem interferindo neles.
Os pensamentos vêm e vão por si próprios, pois, graças ao uso da sabedoria, não há obstrução. Eis o samandhi de pragna e a natural libertação. Tal é a prática do 'não pensamento'. Mas se não pensares em absolutamente nada e ordenares desde logo que os pensamentos cessem, isso equivale a ficares atado de pés e mãos por um método, e é chamado uma visão obtusa."
Allan W. Watts, Budismo Zen
20.9.09
Pensamentos do dia
AGOSTINHO da Silva:
"Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca, são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito. Estão ainda longe de Deus, de uma visão ampla de Deus os que fazem consistir o seu culto em palavras e ritos; mas dos que subirem mais alto não pode haver outra atitude senão a de os ajudar a transpor o longo caminho que ainda têm adiante. Ninguém reprovará o seu irmão por ele ser o que é; mas com paciência e persistência, com inteligência e com amor, procurará levá-lo ao nível mais alto.
Para que possa compreender Deus, para que possa, melhorando-se, melhorar também os outros, o homem precisa de ser livre; as liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização, social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito critico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio; ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura que a sua cultura se for alargando; para um bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte das preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de exploração e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.”
"Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca, são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito. Estão ainda longe de Deus, de uma visão ampla de Deus os que fazem consistir o seu culto em palavras e ritos; mas dos que subirem mais alto não pode haver outra atitude senão a de os ajudar a transpor o longo caminho que ainda têm adiante. Ninguém reprovará o seu irmão por ele ser o que é; mas com paciência e persistência, com inteligência e com amor, procurará levá-lo ao nível mais alto.
Para que possa compreender Deus, para que possa, melhorando-se, melhorar também os outros, o homem precisa de ser livre; as liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização, social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito critico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio; ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura que a sua cultura se for alargando; para um bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte das preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de exploração e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.”
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6.9.09
Todas as coisas têm o seu tempo auspicioso
"O espírito grego clássico, que ainda hoje domina a ciência e a filosofia no Ocidente, privilegia a função activa da inteligência, que, para compreender a realidade, decompõe-na segundo critérios criados pela própria inteligência.
Na filosofia tradicional chinesa, pelo contrário, a inteligência procura observar a realidade em toda a sua integridade, como os actuais sinólogos têm demonstrado.
Assim, os filósofos chineses, observadores argutos da realidade, preferiram que esta se revelasse por si própria sem tentarem impor-lhes critérios. Observando uma montanha, constataram o seu lado escuro e o seu lado soalheiro. É o yin e o yang, o começo de tudo. Ao mesmo tempo, a realidade transforma-se ciclicamente ao ritmo das quatro estações. Por isso, estas constituem um paradigma do processo da transformação. O ritmo sazonal não pode ser ignorado pelo Homem, sob pena de se cometerem erros. E aqui a filosofia chinesa e a Bíblia encontram-se: "Todas as coisas têm o seu tempo, e tudo o que existe debaixo dos céus tem a sua hora".
Foi devido a esta preocupação com a descoberta dos tempos certos para as acções que os chineses desenvolveram diversos sistemas para a descoberta dos tempos 'auspiciosos' para os diversos tipos de actividade. A multplicidade desses sistemas foi tal que o Imperador Qian Long (1736-1795) encarregou um grupo de sábios de organizarem um sistema unificado, que é o que ainda hoje é seguido no Tong Shu. Apesar da natural tentação de se ver o almanaque chinês como uma mera crença popular, ele é, na verdade, sustentado por todo um trabalho filosófico e de compreensão da realidade.
Os chineses preocupam-se mais com a harmonização das suas próprias acções com os ritmos naturais. Preferiram olhar a realidade tal como ela é (ou melhor, tal como ela se apresenta), sem tentar decompô-la. Ao passo que no Ocidente primeiro estabeleceram-se os princípios metafísicos e, num segundo passo, procurou-se analisar a realidade à luz desses mesmos princípios." (...)
in Revista Macau, pág. 67, Dezembeo 2008
Na filosofia tradicional chinesa, pelo contrário, a inteligência procura observar a realidade em toda a sua integridade, como os actuais sinólogos têm demonstrado.
Assim, os filósofos chineses, observadores argutos da realidade, preferiram que esta se revelasse por si própria sem tentarem impor-lhes critérios. Observando uma montanha, constataram o seu lado escuro e o seu lado soalheiro. É o yin e o yang, o começo de tudo. Ao mesmo tempo, a realidade transforma-se ciclicamente ao ritmo das quatro estações. Por isso, estas constituem um paradigma do processo da transformação. O ritmo sazonal não pode ser ignorado pelo Homem, sob pena de se cometerem erros. E aqui a filosofia chinesa e a Bíblia encontram-se: "Todas as coisas têm o seu tempo, e tudo o que existe debaixo dos céus tem a sua hora".
Foi devido a esta preocupação com a descoberta dos tempos certos para as acções que os chineses desenvolveram diversos sistemas para a descoberta dos tempos 'auspiciosos' para os diversos tipos de actividade. A multplicidade desses sistemas foi tal que o Imperador Qian Long (1736-1795) encarregou um grupo de sábios de organizarem um sistema unificado, que é o que ainda hoje é seguido no Tong Shu. Apesar da natural tentação de se ver o almanaque chinês como uma mera crença popular, ele é, na verdade, sustentado por todo um trabalho filosófico e de compreensão da realidade.
Os chineses preocupam-se mais com a harmonização das suas próprias acções com os ritmos naturais. Preferiram olhar a realidade tal como ela é (ou melhor, tal como ela se apresenta), sem tentar decompô-la. Ao passo que no Ocidente primeiro estabeleceram-se os princípios metafísicos e, num segundo passo, procurou-se analisar a realidade à luz desses mesmos princípios." (...)
in Revista Macau, pág. 67, Dezembeo 2008
25.8.09
O Nosso Desejo de Liberdade não é Sincero
"SE estamos todos muito bem preparados para reclamar liberdade para nós próprios, menos dispostos parecemos para reclamar sobretudo liberdade para os outros ou para lhes conceder a liberdade que está em nosso próprio poder; se conhecêssemos melhor a máquina do mundo, talvez descobríssemos que muita tirania se estabelece fora de nós como se fosse a projecção ou como sendo realmente a projecção das linhas autocráticas que temos dentro de nós; primeiro oprimimos, depois nos oprimem; no fundo, quase sempre nos queixamos dos ditadores que nós mesmos somos para os outros; e até para nós próprios, reprimindo todas as tendências que nos parecem pouco sociais ou pouco lucrativas, desejando muito que os outros nos vejam como simples, bem ajustados, facilmente etiquetáveis."
Agostinho da Silva, in 'Sobre as Escolhas'
Agostinho da Silva, in 'Sobre as Escolhas'
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11.8.09
A humanidade, que tem como base o amor ao próximo e ao mundo, e a educação, que é a condição de possibilidade de respeito pelos outros, são os pilares desta filosofia confucionista, que muito preza também a justiça, ou equidade, e a prudência - fundamentais para que o povo não sofra com as decisões dos governantes.
Mas o que torna Mâncio em mais do que um mero seguidor de Confúcio é a defesa do amor-bondade, que ele encontra, em bruto, por exemplo, nas relações entre marido e mulher, pais e filhos. Se os maridos e os pais massacrarem por sistema as mulheres e os filhos, com as suas ideias, certezas e admoestações, estão a cometer um grave erro, que se traduz num preço elevado: pagam-no com o distanciamento dos familiares.
Não obstante, repetimos, o mais original da teoria de Mâncio é aquele que o aproxima de uma filosofia um pouco mais naturalista, quando defende que um homem adulto não deve perder os seus sentimentos de simplicidade de criança (Livro IV, secção B, XII), ou seja, a sua bondade natural, aquela de que muitos de nós sentimos falta, nas lutas que somos obrigados a travar diariamente e um pouco por todo o lado. Para quem se sente mal, por isto ou por aquilo, penso que ideias como estas são bem reconfortantes:
'A tendência da natureza humana para o bem é como a da água para baixo. Não há ninguém inclinado naturalmente para o mal, como a água não tende senão para baixo.'" (Livro VI, Secção A, cap.2-2)
pág.262
"Passo a resumir a perspectiva budista, que tanto me ajudou a encarar a realidade da morte. Todos os fenómenos da vida, com seres incluídos, são impermanentes. Aqueles de que muito gostamos, por um motivo ou outro, vão desaparecendo do nosso horizonte, nós próprios não duramos eternamente, embora alguns 'iluminados' julguem que escapam à lei natural da constante transformação. A vida é composta por estados transitórios, aos quais o budismo tibetano, por exemplo, dá o nome de bardos."
pág 253
Ana Cristina Alves, Crónicas da China, editora COD
Mas o que torna Mâncio em mais do que um mero seguidor de Confúcio é a defesa do amor-bondade, que ele encontra, em bruto, por exemplo, nas relações entre marido e mulher, pais e filhos. Se os maridos e os pais massacrarem por sistema as mulheres e os filhos, com as suas ideias, certezas e admoestações, estão a cometer um grave erro, que se traduz num preço elevado: pagam-no com o distanciamento dos familiares.
Não obstante, repetimos, o mais original da teoria de Mâncio é aquele que o aproxima de uma filosofia um pouco mais naturalista, quando defende que um homem adulto não deve perder os seus sentimentos de simplicidade de criança (Livro IV, secção B, XII), ou seja, a sua bondade natural, aquela de que muitos de nós sentimos falta, nas lutas que somos obrigados a travar diariamente e um pouco por todo o lado. Para quem se sente mal, por isto ou por aquilo, penso que ideias como estas são bem reconfortantes:
'A tendência da natureza humana para o bem é como a da água para baixo. Não há ninguém inclinado naturalmente para o mal, como a água não tende senão para baixo.'" (Livro VI, Secção A, cap.2-2)
pág.262
"Passo a resumir a perspectiva budista, que tanto me ajudou a encarar a realidade da morte. Todos os fenómenos da vida, com seres incluídos, são impermanentes. Aqueles de que muito gostamos, por um motivo ou outro, vão desaparecendo do nosso horizonte, nós próprios não duramos eternamente, embora alguns 'iluminados' julguem que escapam à lei natural da constante transformação. A vida é composta por estados transitórios, aos quais o budismo tibetano, por exemplo, dá o nome de bardos."
pág 253
Ana Cristina Alves, Crónicas da China, editora COD
15.7.09
QUESTÕES de agora e de sempre: "Mesmo que muitos filósofos, como Rousseau, De Rougemont e Fromm desconfiem do amor e defendam que a relação de um casal deve basear--se mais na vontade do que no sentimento.
Esta tese, se levada ao extremo, exclui o amor e concebe a fidelidade como pura obrigação. Assumiste o compromisso de seres fiel, que deves respeitar sempre e em qualquer circunstância. Evitarás as pessoas que possam influen- ciar-te negativamente. Não frequentarás ambientes promíscuos. Não te aproximarás de homens ou mulheres que te agradem e que possas desejar. Sufocarás à nascença os teus impulsos eróticos até ficares indiferente aos estímulos, até que os outros te sintam frio e distante. São em menor número aqueles que deram importância à fidelidade espontânea que nasce de um amor apaixonado. E, contudo, ela existe."
Por Francesco Alberoni, resto da crónica aqui.
Esta tese, se levada ao extremo, exclui o amor e concebe a fidelidade como pura obrigação. Assumiste o compromisso de seres fiel, que deves respeitar sempre e em qualquer circunstância. Evitarás as pessoas que possam influen- ciar-te negativamente. Não frequentarás ambientes promíscuos. Não te aproximarás de homens ou mulheres que te agradem e que possas desejar. Sufocarás à nascença os teus impulsos eróticos até ficares indiferente aos estímulos, até que os outros te sintam frio e distante. São em menor número aqueles que deram importância à fidelidade espontânea que nasce de um amor apaixonado. E, contudo, ela existe."
Por Francesco Alberoni, resto da crónica aqui.
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8.7.09
TAMBÉM a propósito de Ronaldo, entre muitos outros ídolos do nosso tempo: "Já não são as universidades, os filósofos ou o clero a oferecer modelos de comportamento", por Francesco Alberoni.
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30.5.09
"A questão é que, ao contrário do homem, a mulher não é moderna, é clássica, e quer compromisso, quer família. O homem sempre foi moderno. O casamento inventou-se para o 'agarrar'"
Mariela Michaelany (psicanalista)
Mariela Michaelany (psicanalista)
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27.5.09
"NINGUÉM se mata pelo amor de uma mulher. Matamo-nos porque um amor, não importa qual, nos revela a nós mesmos na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado inerme, no nosso nada."
"Pensa mal das pessoas, não te enganarás."
Cesare Pavese
"Pensa mal das pessoas, não te enganarás."
Cesare Pavese
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