23.3.09

Pouco para ver “fora do comércio”

"O modelo de cidade cosmopolita, aberta ao mundo (que terá os seus paradigmas em Londres, Paris e Nova Iorque) não se encontra na Índia. Mesmo em Bombaim, uma metrópole com mais do que 16 milhões de habitantes, a oferta cultural e de lazer é pouco variada, se exceptuarmos os filmes de Bollywood. Em termos de património arquitectónico, a Porta da Índia (um monumental arco construído junto ao mar, para marcar o ponto de entrada do Rei Jorge V no subcontinente) e o Hotel Taj Mahal (recentemente alvo de um atentado terrorista, o espaço foi mandado fazer por um indiano milionário, a quem foi recusada a entrada num hotel ocidental de cinco estrelas por ter uma tez escura) são os dois ex-libris locais, o que é muito pouco para uma cidade com tal dimensão.
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Nos fabulosos mercados populares, como Crawford, Bhuleshwar e Kalbadevi, a actividade comercial é frenética, mas percorrendo a cidade fica-se com a ideia de que há uma escassez gritante de espaços onde se possa passar o tempo agradavelmente e “fora do comércio”. Exceptuando as zonas de Colaba e do Forte, onde a herança colonial britânica é notória, dificilmente se encontram um jardim, um museu, um café acolhedor ou uma instituição cultural. Ao lado dos arranha-céus onde estão sedeadas as maiores empresas indianas, muitos sem abrigo, vindos das aldeias em busca de sorte, descansam a fome e os vários filhos pequenos no areal da praia de Chowpatty, numa mistura explosiva entre acumulação capitalista e a mais abjecta das pobrezas. Este cenário terceiro-mundista é completado pela maior extensão asiática de bairros de barracas, continuamente visível ao longo dos 30 quilómetros que separam o centro do aeroporto internacional, e talvez explique a pouca oferta cultural e de lazer. É que grande parte dos habitantes de Bombaim limita-se a tentar subsistir, não se podendo dar ao luxo de assistir a espectáculos pagos ou de frequentar espaços de lazer. Não podem pagar e, por isso, não são consumidores. Os abastados e os estrangeiros dispõem de restaurantes com decorações sofisticadas, hotéis luxuosos, bares com ar condicionado e outras mordomias inimagináveis para o indiano comum.
O pouco cosmopolitismo indiano não se nota apenas na falta de infra-estruturas culturais, mas também na forma como a sociedade está fechada sobre si própria. Apesar da secular presença inglesa (cuja principal herança é a popularidade do inglês, falado por milhões de indianos), não existe uma grande interacção com culturas estrangeiras. Na imprensa, os grandes eventos internacionais são abordados na medida dos interesses da Índia. O país é de tal forma gigantesco em termos geográficos e populacionais, que continua centrado nele mesmo."
Texto e foto:P.B.

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